Agô!  –  um retrato da canção de arte afro-brasileira A     cultura     brasileira      é     muito     diversificada,     resultando     de     um     ambiente     social extremamente   complexo.   Povos   de   diversos   continentes   se   integram   já   há   séculos   em solo    brasileiro.    No    entanto,    permanecem    ainda    claramente,    como    básicos,    três elementos   germinadores   da   sociedade   brasileira   e   sua   cultura:      o   indígena,       o   europeu   e o   africano.   No   que   tange   à   música   brasileira   –   ou   melhor,   à   musicalidade   dos   brasileiros – é inquestionável a influência africana para a definição de seu caráter. Agô    significa   na   língua   iorubá   pedido   “de   passagem”,   “de   licença”,   “de   proteção”   ou   “de bênção”   e   até   “de   perdão”:   este   repertório   permite   ao   ouvinte   o   contato   franco   com   a enorme    diversidade    de    formas    de    expressão    afro-brasileiras,    através    de    cantos ritualísticos,     canções     de     amor,     de     ninar,     canções          evocadoras     de     alegria,     de ressentimento,     apaixonadas,     maliciosas,     canções     inquietantes     e     patéticas,     além daquelas    que    praticamente    exigem    a    participação    ativa    da    imaginação    do    ouvinte. Algumas    delas    tendem    a    possuir    um    caráter    mais    camerístico,    outras    já    são    mais populares      –      podendo   ser   marcadas   por   melodias   e   ritmos   sutis   ou   pelo      predomímio do    ritmo    como    elemento    original,    atávico.    Há    também    aquelas    canções    que    se caracterizam    por    um    distanciamento    estético    estilizado    –    buscando    talvez    assim    o espírito   genuíno   da   fonte   inspiradora.   O   amante   de   música   europeu   tem   neste   trabalho a   oportunidade   de   entrar   em   contato   com   um   vasto   repertório   de   música   brasileira, desde Lundus do século XIX até obras recentemente compostas. A   peculiaridade   desta   gravação     está   no   seu   caráter   interpretativo   de   aprofundamento   sincero   e   absoluto   no   cerne   de   cada   obra,   como   se   fora   um   universo   próprio.   Não   concessões   belcantistas.   O   resultado   é   uma   linha   de   tensão   carregada   de   contraste   e surpresa   contínua.   Os   tratamentos   timbrísticos   tão   diversificados   se   apresentam   como virtuosísticos,    o    que    não    pode    deixar    de    ser    considerado    como    uma    contribuição ousada,   sobretudo   ao   se   levar   em   consideração   o   fato   de   ainda   não   se   ter   encontrado na   tradição   interpretativa   uma   paradigma   coerente   de   interpretação   da   canção-de-arte brasileira.    Sabe-se    que    os    parâmetros    estéticos    da    tradição    vocal    da    música    de concerto    européia    são    a    base    da    formação    e    da    interpreção    do    cantor    ocidental consciente,    o    qual    busca,    por    sua    vez,    os    claros    reflexos    da    cultura    específica,    da maneira   própria   de      ser   e   sentir   do   povo   que   inspira   cada   criação   musical   –   e   esta gravação    é    um    modelo    estupendo    desta    postura    consciente    e    responsável.    Em    se tratando    de    um    gênero    musical    desenvolvido    em    contexto    social,    antropológico    e cultural   tão   complexo   o   intérprete   corre   o   risco   de   se   perder   em   generalizações   ou,   ao contrário,   em      particularização   limitadora   da   expressão   da   obra.   E,   na   evolução   deste gênero   num   contexto   completamente   diverso   daquele   de   sua   origem,   os   parâmetros formais    ou    interpretativos    “vigentes”    parecem    perder    sua    eficácia,    perdendo    a abrangência   de   sua   validade   e   até   mesmo   de   sentido.      O   que   se   observa   é   que   até hoje,    infelizmente,    intérpretes    que    têm    em    regra    sua    compreensão    fundamentada exclusivamente   em   aspectos   técnicos   e   estilísticos   originários   da   Europa,   pouco   se ocuparam seriamente  com tais reflexões. O   barítono   Renato   Mismetti   e   o   pianista   Maximiliano   de   Brito  ,   sem   negar   a   tradição interpretativa   e   seus   modelos   já   existentes,   indicam   aqui   um   novo   caminho   –   e   de maneira   consistente.   Sendo   brasileiros,   conta   ainda   a   seu   favor   o   interesse   e   paixão   com   que   se   ocupam   da   questão   interpretativa.   No   caso   de   Renato   Mismetti,   observa-se nitidamente   a   compreensão   absoluta   de   cada   palavra   cantada,   como   se   degustasse   cada      sílaba      e      projetasse      assim      sensualmente      cada      imagem      evocada.      Seu temperamento   às   vezes   vulcânico   não   se   interpõe   ao   controle   absoluto   da   voz,   a   qual conduz    com    elegância    linhas    ora    carregadas    de    poesia,    ora    de    ternura,    ora    de sensualidade,   mas   também   de   desprezo,   malícia   e   humor.   Sua   articulação   do   português do   Brasil   –   um   país   de   dimensões   quase   continentais   –   é   natural   e   neutra,   despida   de modificações   ou   omissão   de   sons   nasais   e   guturais,   fazendo   com   que   o   idioma   se apresente   com   frescor,   genuíno   e   sobretudo   também   como   um   verdadeiro   veículo musical.   Maximiliano   de   Brito   corresponde,   como   num   diálogo   concentrado,   à   atitude do    cantor.    Com    admirável    empatia    e    inteligência    musical,    corrobora    elementos    de “afro-brasilidade”    em    cada    momento    de    sua    participação,    com    enorme    fantasia musical,    o    que    lhe    permite    oferecer    ao    cantor    quase    um    “cenário    sonoro”    à    sua mensagem  poética. Neste   trabalho   é   evidente     não   apenas   a   coerência   absoluta   dos   dois   artistas      em relação   à   finalidade   do   projeto,   mas   também   sua   seriedade   quase   implacável.   Renato Mismetti   e   Maximiliano   de   Brito   realizaram,   com   sua   experiência   e      sensibilidade,   um resultado   absoluto   e   brilhante   –   uma   verdadeira   sensação   musical!   Este   registro   sonoro abre   realmente   novos   caminhos,   dividindo   águas,   constituindo   uma   pedra   de   toque   referência   absoluta   para   intérpretes   da   canção-de-arte   brasileira   e   para   o   público   que busca uma autêntica manifestação deste gênero.
excertos:
CD à venda:
Renato   Mismetti  ,   one   of   the   supreme   interprets   of   brazilian   art song   .   .   .   It   would   be   hard   to   imagine   a   better   ambassador   than Renato    Mismetti    to    promote    the    Brazilian    art    song.    It    is    also difficult     to     imagine     a     more     well-suited     accompanist     for     Mr. Mismetti    than    Maximiliano    de    Brito  .    It    is    clear    that    theese gentlemen   enjoy   playing   togehter,   and   it   appears   that   much   of   the world enjoy hearing them do so. New York Concert Review